20/06/2021

Participação mística

Uma expressão que aparece frequentemente nos textos de Jung é "primitivo", tanto para caracterizar pessoas ("os primitivos") quanto para qualificar fenômenos humanos (como "pensamento primitivo"). Sendo típica da cultura eurocentrista do fim do século 19, esta expressão foi denunciada como racista pelos antropólogos e abandonada, pouco a pouco, ao longo do século 20. 

Por que é que Jung a seguiu usando até o final da vida, então? A razão se pode encontrar na influência que um antropólogo chamado Lucien Lévy-Bruhl exerceu sobre Jung, em especial seus livros A mentalidade primitiva e A experiência mística e os símbolos entre os primitivos. Nestes livros (e em vários outros), Lévy-Bruhl apresenta um conceito que será muito útil a Jung para a construção da sua teoria: o conceito de "participação mística". O que é isso? É a vivência, por parte das pessoas em culturas pré-modernas, de estar em contato - e até parentesco - com seres de outras dimensões, sejam eles animais da floresta, ancestrais mortos, espíritos da natureza e até mesmo deuses e deusas de sua religião. Esta vivência, nós modernos não a possuímos mais, porque abandonamos todo tipo de saber que não obedece à lógica.

"Primitivo", portanto, não é igual a "inferior"; se refere mais à ideia de anterioridade, "aquilo que tínhamos antes, por primeiro". E é assim que Jung entende o termo: ele se refere a isso que tínhamos antes - a participação mística - e cuja falta hoje em dia causa o sofrimento neurótico predominante em nossa cultura. Por não termos mais este sentimento de comunhão simbólica com os elementos da realidade a nossa volta - e por estarmos restritos à lógica para explicar esta realidade - nós, homens e mulheres modernos, sofremos em um mundo que nos parece hostil e incompreensível. Restaram para nós apenas os sonhos como lembrança desta experiência intensa.

Lévy-Bruhl, no final da vida, cedeu às críticas e concordou que o termo não deveria mais ser usado em Antropologia, pelas ressonâncias colonialistas que carrega. Mas Jung não se preocupou com isso: para ele, este é um conceito imprescindível para se entender culturas, sentimentos e até mesmo o Inconsciente.

Abaixo, um hábito primitivo que não abandonamos: fazer uma fogueira e ficar olhando para ela. O fogo nos encanta até hoje, sem sabermos bem porquê. 

Talvez seja porque um espírito vive nele.