21/02/2021

Wind phone


Wind phone é uma cabine telefônica situada num jardim em Otsuchi, no Japão. Como as cabines telefônicas de antigamente (bem diferentes dos nossos "orelhões", que eram abertos), esta cabine em Otsuchi é toda de vidro: você entra nela e pode fechar a porta para falar sem ser interrompido pelo barulho da rua. Há uma cadeira e, diante dela, uma pequena prateleira com um telefone preto em cima. Do mar, que você enxerga pelos vidros da cabine, sopra o vento que dá nome ao local: "telefone do vento".

O wind phone é um artifício criado em 2010 pela imaginação de um paisagista chamado Itaru Sasaki, que sofria na época com a perda de um familiar. É um telefone mudo - desconectado -, feito para você falar com aquelas pessoas que você ainda ama, mas que já morreram. É um truque, basicamente. Mas é um truque que funciona: ainda que todos entrem na cabine sabendo que o telefone está desconectado, no momento em que tiram o fone do gancho, a mágica se produz mesmo assim. As pessoas falam, como se estivessem sendo escutadas, como se o vento que vem do mar pudesse levar as conversas a quem não está mais no mundo conosco.

Numa sociedade tão tecnológica como a japonesa, é interessante ver que práticas como essa, que poderiam ser chamadas de "mágicas" - ou até mesmo de "sagradas" - retornam para dar conta de sentimentos profundos como o luto.







19/02/2021

MS Estonia, um navio assombrado


Este mês, duas decisões judiciais foram tomadas pela Justiça da Finlândia, ambas envolvendo fatos ocorridos no navio MS Estonia, que naufragou no mar Báltico em 1996.
Na primeira decisão, os juízes aceitaram a denúncia contra o passageiro que teria sido autor de um homicídio chocante ocorrido a bordo do navio, em 1987: um casal de jovens turistas alemães foi espancado enquanto dormia no deck, causando a morte do rapaz e sérios ferimentos na namorada dele. O crime estava sem solução desde aquela época e o suspeito agora vai a julgamento.

Na outra decisão divulgada este mês, a Justiça absolveu de culpa a equipe de TV sueca que desceu sem autorização aos restos do navio e que trouxe de lá filmagens que apontam suspeitas a respeito da razão do afundamento trágico do Estonia: as filmagens mostraram, pela primeira vez, um enorme buraco no casco, possivelmente provocado pela colisão com um submarino, ou até mesmo por uma bomba. O indício desconhecido levou à reabertura das investigações sobre as causas (e responsabilidades) deste desastre em que morreram mais de 800 pessoas.

Estas duas notícias, chegando juntas em fevereiro de 2021, fizeram, então, vir à lembrança do público outro homicídio brutal, ocorrido um ano antes da agressão ao casal de namorados alemães. E o comentário geral foi: será que o Estonia era um navio assombrado? O que é que atraiu tantas tragédias para seus passageiros?
Não sei dizer se havia uma influência sinistra circulando pelos corredores do navio, mas é certo que o número de situações alegres e positivas que aconteceram no Estonia supera de longe estes episódios tenebrosos que a imprensa noticiou; afinal de contas, era um ferry boat sempre cheio de turistas e gente voltando para casa. Mas, então, por que é que os episódios felizes também não foram lembrados, no momento em que se falou que o barco era assombrado? 

Talvez seja porque o Mal, na nossa cultura materialista, ainda seja visto como transcendente. Sem Deus, sobrou para o demônio a tarefa de nos lembrar do milagre da vida.