Fotografar os indígenas norteamericanos foi uma espécie de moda no início do século 20. A ideia era retratar, de forma romântica, uma civilização que estava "desaparecendo" e que, se não fosse fotografada para a posteridade, se perderia na poeira da História. Na verdade, a cultura indígena não estava desaparecendo, estava sendo apagada! A forma que estes fotógrafos escolheram para mostrar os nativos norteamericanos - como nobres guerreiros derrotados - ajudou neste apagamento: ao procurar o olhar nostálgico dos derrotados, eles deixaram de retratar as práticas culturais reais que ainda estavam bem vivas e em uso na época entre os povos Sioux, Navajo e tantos outros. A visão romantizada da "civilização perdida" foi mais uma violência contra estes povos.
No entanto, a fotografia pode ser uma arte e revelar aspectos que o próprio autor da obra não tinha planejado. Por exemplo, na foto acima, em que aparece o senhor Nesjaja Hatali, um Navajo, o que vemos não é o chefe guerreiro com o semblante trágico da derrota, mas uma pessoa de idade que parece saber muita coisa: é um típico Velho Sábio. Hatali, na verdade, foi um xamã, uma daquelas pessoas que tem o dom (e a responsabilidade) de visitar e se comunicar com os seres não-humanos que nos cercam. O xamã é uma pessoa que pode vivenciar acordado aquilo que Henry Corbin chamou de "mundo imaginal", um mundo que nós só acessamos em sonho.
E se o olhar dos chefes guerreiros é o olhar triste de quem viu seu povo ser destruído, o do xamã é o de quem sabe que existem muitos mundos além deste, violento.



