23/05/2021

Os xamãs


Fotografar os indígenas norteamericanos foi uma espécie de moda no início do século 20. A ideia era retratar, de forma romântica, uma civilização que estava "desaparecendo" e que, se não fosse fotografada para a posteridade, se perderia na poeira da História. Na verdade, a cultura indígena não estava desaparecendo, estava sendo apagada! A forma que estes fotógrafos escolheram para mostrar os nativos norteamericanos - como nobres guerreiros derrotados - ajudou neste apagamento: ao procurar o olhar nostálgico dos derrotados, eles deixaram de retratar as práticas culturais reais que ainda estavam bem vivas e em uso na época entre os povos Sioux, Navajo e tantos outros. A visão romantizada da "civilização perdida" foi mais uma violência contra estes povos.

No entanto, a fotografia pode ser uma arte e revelar aspectos que o próprio autor da obra não tinha planejado. Por exemplo, na foto acima, em que aparece o senhor Nesjaja Hatali, um Navajo, o que vemos não é o chefe guerreiro com o semblante trágico da derrota, mas uma pessoa de idade que parece saber muita coisa: é um típico Velho Sábio. Hatali, na verdade, foi um xamã, uma daquelas pessoas que tem o dom (e a responsabilidade) de visitar e se comunicar com os seres não-humanos que nos cercam. O xamã é uma pessoa que pode vivenciar acordado aquilo que Henry Corbin chamou de "mundo imaginal", um  mundo que nós só acessamos em sonho. 

E se o olhar dos chefes guerreiros é o olhar triste de quem viu seu povo ser destruído, o do xamã é o de quem sabe que existem muitos mundos além deste, violento. 


13/05/2021

Henry Corbin

 




Se existe alguém que conseguiu construir uma ponte verdadeira entre o pensamento do Ocidente e o do Oriente, este foi Henry Corbin. Antes dele, outros já tinham tentado isso (Schopenhauer buscou inspiração nos Vedas, por exemplo), mas Corbin foi quem deu o passo maior, ao mostrar que a grande redescoberta do Ser empreendida por Heidegger já havia sido tentada séculos antes por uns esotéricos iranianos, chamados sufis. O Sufismo e a filosofia Existencial seriam, então, sabedorias do Ocidente e do Oriente unidas por uma ponte que Corbin foi o primeiro a identificar.

O que há de comum entre estas duas sabedorias? Corbin nos mostra que ambas procuram o significado das ações humanas não em seu aspecto utilitário ("de onde vem isso? como isso começou?"), mas sim procuram identificar as formas milenares que se ocultam por detrás dos atos e atitudes comuns. 

Em outras palavras, Corbin está dizendo que devemos procurar pelos arquétipos: se queremos entender os acontecimentos na vida do nosso país, por exemplo, devemos abandonar a busca pelas causas históricas dos problemas (suas razões utilitárias) e tentar outro caminho, o de identificar as ocasiões em que eventos passados tomaram a mesma forma que este atual. No caso da atual crise das vacinas no Brasil, podemos ver que as autoridades do governo federal ganharam um aspecto diabólico no imaginário da maioria das pessoas, e essa forma repercute as aparições anteriores do mesmo tema no passado (os textos mais antigos, como a Ilíada e o Velho Testamento, já retratavam a figura do governante possesso, adorador da Morte).

Portanto, a verdade das coisas se revela no momento em que abandonamos a perspectiva utilitarista que encadeia os acontecimentos em correntes de causa e efeito, metas e objetivos. Quando deixamos esta visão dominante de lado, temos a oportunidade de sintonizar com as formas milenares que regem o aparecimento dos acontecimentos humanos desde um tempo muito primitivo. 

Este trabalho de Corbin foi uma inspiração para Jung, mas é na obra de James Hillman, criador da psicologia arquetípica, que vemos a presença das ideias dele com mais força. 



02/05/2021

Islã, o Oriente sombrio

 


Há 10 anos, soldados americanos executaram Bin Laden em sua casa, no Paquistão. 

10 anos antes disso, as Torres Gêmeas tinham sido derrubadas em Nova York, e o Islã virou sinônimo de fanatismo para as pessoas no Ocidente. Não que a religião de Muhamad tivesse até então um conceito muito bom por aqui, como Edward Said mostrou no seu livro Orientalismo, mas a imagem do Islamismo piorou muito depois que este guru do islamismo militante apareceu nos noticiários como sendo a mente por trás do ataque em que morreram tantas pessoas inocentes. Com cara de profeta do deserto, Bin Laden lembra um Velho Sábio arquetípico, mas o Velho Sábio em seu aspecto sombrio e assustador: um gênio do Mal.

Jung sempre teve contato com a cultura islâmica, sejo pelo trabalho de seu pai (estudioso dessa religião), seja pelas viagens que fez a países muçulmanos e até pelos sonhos que teve com este tema. O Islã atraía Jung. E em Ascona, em uma das reuniões do grupo Eranos, ele teve a oportunidade de conhecer o francês Henry Corbin, professor da Sorbonne, que entendia tudo da espiritualidade daqueles povos, em especial o sufismo iraniano. Através de Corbin, Jung pode entrar em contato com o lado luminoso daquilo que Bin Laden representa sombriamente.

A obra de Henry Corbin foi uma das principais inspirações para James Hillman, quando ele criou a Psicologia Arquetípica. Seguirei falando sobre este tema em outra postagem.

(abaixo, Jung e Corbin em Ascona)