26/01/2021

Viajantes


Em 1889, duas jornalista norteamericanas partiram em uma corrida contra o tempo a fim de darem a volta ao mundo em menos de 80 dias e superar, com isso, a marca obtida por Philleas Fogg, o personagem do romance que Jules Verne havia publicado pouco antes. Apoiadas pelos seus jornais, Nellie Bly e Elizabeth Bisland partiram em direções opostas (Nellie em direção da Europa, Elizabeth em direção ao Pacífico), sozinhas e sem nenhum tipo de apoio financeiro ao longo do caminho. Por telégrafo, elas puderam informar os leitores sobre o avanço da viagem e, dessa forma, se criou um fato jornalístico sensacional em torno delas: onde estavam, o que tinham visto, quem iria chegar por primeiro em Nova York? 

No fim, Nellie ganhou com a vantagem de quatro dias sobre a concorrente e os detalhes da viagem foram publicados por ela mais tarde no livro Volta ao mundo em 72 dias.

Mas esta não foi a primeira viagem sensacional de Nellie Bly: no ano anterior, ela fingiu ser louca e foi internada no Hospício Municipal de Nova York, a fim de investigar se eram verdadeiros os relatos de maus tratos às pacientes da ala feminina do hospital que tinham chegado a ela no jornal. A partir do diagnóstico do psiquiatra de plantão que a examinou - "ela é louca!" - Nellie foi internada e iniciou uma viagem aos porões escuros do sistema de saúde mental que, naquela época, era conhecido pela forma desumana de tratamento dado às pessoas com sofrimento psíquico grave. Esta viagem, e não a outra ao redor do mundo, Nellie jamais esqueceria, pela crueldade e violência que viveu junto às outras mulheres internadas.

O relato desta experiência traumática foi apresentado mais tarde no livro 10 dias num hospício, que chocou os leitores da época e pôs em andamento uma reforma no sistema psiquiátrico norteamericano.

De uma certa forma, a história de Nellie se assemelha à de Jung: ambos fizeram viagens para muito longe de casa, e ambos percorreram corajosamente os caminhos sombrios da loucura (Nellie no hospital psiquiátrico e Jung em seus sonhos e visões depois do rompimento com Freud).

Os efeitos destes atos corajosos nos beneficiam até hoje.






22/01/2021

Q, um sonho coletivo


Ontem, 20 de janeiro, tomou posse em Washington o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden. Devido ao risco de se repetirem os atos violentos vistos na invasão do prédio do Capitólio semanas antes, a posse foi fechada ao público, e os americanos tiveram que assistir a cerimônia pela televisão. Uns o faziam com alegria, outros com tristeza, como seria de se esperar, mas havia um grupo que olhava para a tela com a certeza de que algo espetacular estava prestes a acontecer: o cumprimento de uma profecia contada a eles nas redes sociais, de que os militares sob o comando de Trump iriam interromper a posse para prender Joe Biden e, mais tarde, instaurar um governo de salvaçao nacional. Esta profecia, alimentada por um misterioso personagem chamado simplesmente "Q", não se cumpriu, e a posse transcorreu sem problemas. Aos adeptos de Q restou apenas o vazio de uma promessa que se mostrou mentirosa: Trump não só não liderou um golpe militar como ainda perdoou, nos últimos dias de mandato, algumas figuras públicas condenadas na justiça por corrupção (entre eles, um político do partido Democrata!).

Mas se tudo não passava de ilusão, por que é que parecia tão verdadeiro para os adeptos de Q? Jung dizia que um arquétipo não integrado à personalidade pode vir a se impor desde o exterior, desde a realidade. 

Ou seja, se não ouvirmos nossos sonhos, sonharemos mesmo assim, só que acordados. E o despertar pode ser amargo.





16/01/2021

Jung em Venice Beach


Venice Beach, em Los Angeles, é conhecida pelas pinturas e murais em prédios. Um deles, a uma quadra da praia, homenageia os grandes panteistas, pessoas que defendiam a ideia radical de que Deus existe e está NA realidade (não fora dela). No grupo retratado no mural há desde gênios da física até poetas, passando por filósofos e militantes de direitos civis.

Na parte superior, podemos ver Jung, entre o cientista Carl Sagan e o estudioso de plantas alucinógenas Terence McKenna.

Pessoas tão diferentes umas das outras, mas que olhavam da mesma forma para a vida. E que agora estão juntas em Venice Beach, perto do mar, à sombra das palmeiras...





4 de julho


No dia 4 de julho de 1054, uma luz muito forte apareceu no céu, na constelação do Touro. Era tão forte que podia ser vista até de dia. Os chineses chamaram esta luz de "estrela visitante" e no deserto do Novo México, onde a vista do céu noturno é cristalina, as pessoas deixaram registrada sua aparição em pinturas na parede.

Hoje sabemos que se tratava da explosão de uma estrela - uma supernova - e que a nebulosa do Caranguejo, uma das mais bonitas, é na verdade o resto que ficou desta explosão espetacular.
Sabemos mais coisas até: que no centro desta nebulosa está um pulsar e que este pulsar é a maior fonte de raios gama que chegam até nós.
Mas mesmo sabendo tanta coisa, eu ainda preferia de ter estado lá e visto aquela estrela com os olhos admirados da gente daquela época. Porque hoje tudo aparece em telas, a tecnologia não sai da nossa frente.
Abaixo, o registro da supernova feito pelos habitantes dos Pueblos, no Novo México, em 1054.




A nudez


A prisão de Jesus no monte das oliveiras foi um episódio violento, com derramamento de sangue e muita confusão. Não só o Mestre foi alvo da repressão policial, mas também seus seguidores que, por isso, fugiram dali com medo. Um dos discípulos de Jesus quase foi preso, mas, ao ser agarrado pelas roupas, se soltou delas e fugiu nu... Esse personagem foi bastante retratado no passado pelos artistas, e ainda pode ser visto nas paredes das igrejas.

Mas Jesus também ficou nu na frente de todos, só que mais tarde, como forma de castigo e humilhação. Em um caso, as roupas são abandonadas em troca da liberdade, e no outro elas são arrancadas como sinal de submissão. Qual o sentido desse espelhamento?

Não sei, mas é a mesma nudez, o mesmo desamparo, no preso e no fugitivo.




A ilha


Na mitologia da Irlanda antiga, Brasil é o nome de uma ilha que todos sabem que existe mas onde ninguém jamais esteve, porque ela só aparece uma vez a cada 7 anos, do meio da neblina, e depois some de novo.

Várias cartas náuticas antigas retratavam Brasil perto da costa irlandesa. Por isso, em 1870, a Sociedade Geológica Francesa patrocinou uma expedição para encontrá-la, e o resultado foi categórico: a tal ilha não existe!
Mas pode ser que ela de fato exista e os franceses não a acharam porque passaram por ela no momento em que estava oculta, sei lá.

O apartamento onde eu moro, por exemplo, é hoje uma ilha em que vivo isolado. Nunca imaginei que esta ilha existisse. Ela simplesmente apareceu.




Burning man


A gripe está levando ao cancelamento de inúmeros eventos importantes de gente criativa, e isso pode tornar nossas vidas mais mecânicas e repetitivas no futuro. Mas tem um que ainda permanece confirmado, e que seria uma pena se não acontecesse: é o Festival Burning Man, no deserto de Nevada, nos Estados Unidos.

Desde 1990, as pessoas se reúnem no final de agosto no deserto de Black Rock pra uma espécie de festa tribal, em que se queima uma gigantesca estátua de um homem de madeira ao final dos sete dias do encontro. Música, arte e tecnologia se misturam - e as pessoas se misturam também -, envolvidas por uma paisagem fora do comum. Tomara que o festival possa acontecer este ano de novo!




Video games



O cinema era só divertimento, até "Cidadão Kane" estrear. Aí o cinema virou arte. Com os jogos eletrônicos está acontecendo a mesma coisa, com a diferença que ainda esperamos pelo Cidadão Kane dos games... Alguns dizem que "Hellblade" conseguiu dar esse salto: é a história de uma jovem mulher na idade média que sofre de psicose e deseja, mesmo assim, seguir sua vida.

Quem joga acompanha Senua - esse é o nome dela - em suas tentativas de ser forte, mesmo quando fantasia e realidade se confundem em sua cabeça.

Com "Hellblade" (e outros), os video games deixaram de ser só passatempo para virarem experiências únicas e surpreendentes.









 

Viver e morrer


O lançamento do próximo filme da franquia 007 foi postergado em função da epidemia de gripe: "007 - Sem tempo para morrer" vai chegar só em novembro nos cinemas.

A notícia me lembrou de outro filme do agente inglês, com um título parecido: "007 - Viva e deixe morrer". Neste filme, de 1973, James Bond consulta uma linda cartomante que tira para ele a carta da Morte; James, que tinha arranjado o baralho previamente, tira para ela a carta dos Amantes...

Não é a mesma coisa "viver sem tempo para morrer" e "viver e deixar morrer" - a morte é igual nos dois casos, mas a qualidade da vida é que é diferente: se o 007 atual tem pressa e não pode parar de fugir, o de 1973 sabe que a hora de cada um vai chegar inevitavelmente, por isso é inútil ter medo. Então, ele se arrisca a viver.






Tesouros


Muita gente ainda acredita que certos aspectos da paisagem podem ser sinais indicativos da localização de tesouros enterrados: a crença é de que, antigamente, as pessoas interessadas em esconder suas riquezas enterravam elas em algum lugar e depois arranjavam o ambiente natural de forma a poderem encontrar o local mais tarde e recuperar seu patrimônio. Se você ver duas figueiras centenárias com seus galhos entrecruzados, por exemplo, desconfie: ali embaixo pode haver dinheiro.

Em Santa Maria, cidade localizada exatamente no centro geográfico do Rio Grande do Sul, aconteceu algo parecido: em 1955, foram plantadas árvores para indicar onde se encontra este centro, chamado de "o coração do Rio Grande". A forma escolhida foi a de uma estrela (veja a foto acima).

Hoje, infelizmente, o bosque não existe mais.
E o tesouro que ele indicava ficou mais difícil de recuperar.





Uma lenda moderna


Quando eu era (mais) jovem, li os livros de Carlos Castañeda sobre seu tempo como aprendiz de um feiticeiro mexicano chamado don Juan. Encontrei nesses livros muita coisa interessante, posso até dizer que "aprendi" algo com eles.

Hoje se sabe que a história toda não passou de uma fraude científica: para obter um PhD em Antropologia na UCLA, Castaneda inventou o encontro com este feiticeiro e tudo o que se seguiu (até foram encontradas as fichas de empréstimo da biblioteca da faculdade que mostram que, nos dias em que Castaneda disse estar conversando com don Juan no deserto, ele estava de fato retirando material sobre os indígenas mexicanos para ler em casa).

Muita gente boa acreditou no mundo de magia que Castaneda apresentou (inclusive a banca de professores que lhe outorgou o título de doutor). Outros apenas se inspiraram na história, como George Lucas, por exemplo, que usou a relação entre Castaneda e don Juan como modelo para a aprendizagem de Luke Skywalker com mestre Yoda, em Star Wars.

Nos parece, então, que mesmo sendo falsos estes livros nos apresentam algo de verdadeiro. É como se eles contassem uma lenda, só que uma lenda moderna, psicodélica.





Senet


Senet, um jogo de tabuleiro muito popular entre os antigos egípcios, tinha como objetivo final fazer com que as peças de cada jogador chegassem ao outro lado do tabuleiro sem serem capturadas pelas do adversário. Com o tempo, porém, o jogo passou a ser usado para simular a jornada da alma pelo mundo dos mortos, seus avanços e desafios.

Não conhecemos um jogo assim, que retrate a jornada da alma; talvez as cartas do tarô sejam o mais parecido que temos com isso.




Ocidente / oriente


Jung realizou um trabalho que parecia quase impossível: criar pontes entre o pensamento do Oriente e o do Ocidente. Pra maioria das pessoas, nosso racionalismo e o misticismo das religiões nascidas na Índia eram como azeite e água, não se misturavam de jeito nenhum. Por isso o impacto (e a resistência) da obra de Jung na época.

Mas se as pessoas soubessem mais sobre a civilização Gandhara do século III AC, a surpresa causada pelas ideias de Jung talvez tivesse sido menor. É que nessa civilização, situada no atual Paquistão, o idealismo da filosofia grega e a contemplação budista se misturaram sem problemas, harmoniosamente.

Acima, um exemplo da arte deste período: na figura de Buda se nota a presença de Apolo






1917

 

O filme "1917" disputa o Oscar de melhor filme deste ano e dizem que pode até ganhar do "Coringa".

Nessa época, 1917-18, o psicólogo suíço Jung dirigiu um campo de prisioneiros - na Suíça - pra onde eram mandados muitos dos soldados ingleses como os que o filme retrata. Lá, eles recebiam tratamento médico e a visita de familiares.
Quem conhece a biografia de Jung sabe que essa experiência recuperou ele pro trabalho, depois de uma longa crise pessoal. Por isso, vai ser interessante assistir o filme e ter uma ideia de como foi aquele tempo de destruição e cura.
Estréia em 23 de janeiro.
(a foto acima mostra internos no campo de Jung)