31/03/2021

Bernard Stiegler, o bandido que virou filósofo

 


Para quem estuda Jung, há um filósofo que vale a pena conhecer: se chama Bernard Stiegler. Falecido em agosto do ano passado, Bernard Stiegler foi um radical na crítica à cultura consumista e tecnológica em que vivemos. Entre os seus conceitos principais estão dois que o aproximam de Jung: Individuação e Complexo de Antígona. A Individuação de Stiegler é um fenômeno coletivo (e não pessoal, como em Jung), mas ainda assim é muito parecido em vários aspectos ao processo que Jung descreveu em seus livros. Já o Complexo de Antígona poderia muito bem ser entendido como um arquétipo, tal a semelhança com, por exemplo, o arquétipo do Velho Sábio (um dos primeiros a serem nomeados por Jung). Por isso, é tão interessante ler Stiegler: é como chegar em uma cidade conhecida, mas vindo por uma estrada completamente diferente da que estamos acostumados a usar.

O curioso, no caso de Stiegler, é que ele se formou filósofo enquanto cumpria pena de prisão por assalto a mão armada, na França. Um bandido que virou filósofo... Será que houve outro?

04/03/2021

50 anos da "experiência de La Chorrera"


Este mês vai fazer 50 anos que os irmãos Terence e Dennis McKenna, junto com três amigos, foram para o interior da Amazônia colombiana atrás de ayahuasca. A cidade de La Chorrera, que é habitada até hoje por indígenas da etnia Uitoto, seria o lugar ideal para encontrar essa substância alucinógena, por causa da tradição de cultos xamânicos do povo e pela proximidade com a floresta, onde a ayahuasca normalmente pode ser facimente encontrada. Por isso, foi para lá que eles se dirigiram em 1971.

No entanto, ao chegarem lá, viram que não havia ayahuasca na região e que tampouco aqueles indígenas praticavam o xamanismo. O que havia, sim, em abundância eram cogumelos alucinógenos! 

Sem hesitar, os irmãos McKenna começaram a comer os cogumelos, mas sem saber a potência que eles tinham (são cogumelos desconhecidos na América do Norte). Depois de ingerirem uma grande quantidade deles, os efeitos começaram a se produzir nas mentes dos dois, e estes efeitos - o que eles viram e sentiram - é a chamada "experiência de La Chorrera". É o momento inaugural da cultura psicodélica contemporânea que teve, em Terence, seu maior divulgador.

Além de explorador das regiões mais estranhas da consciência, Terence McKenna foi também um grande estudioso e colecionador de borboletas.

03/03/2021

A bruxa

 


Helena Blavatsky foi uma aristocrata russa que casou muito cedo, mas logo se separou do marido e foi fazer uma viagem pelo mundo que durou 9 anos. O que ela buscava? Liberdade, com certeza, mas também conhecimento espiritual. Ela foi primeiro à Índia, onde se converteu ao Budismo (uma das primeiras pessoas do Ocidente a fazê-lo) e, já a partir desta experiência, começou a escrever. Seu primeiro livro, que é até hoje uma referência para quem quer conhecer a filosofia budista, se chama A voz do silêncio e foi relançado recentemente com uma introdução do Dalai Lama.

Depois da Índia, Helena - ou Madame Blavatsky, como passou a ser conhecida - seguiu na sua busca, indo ao Canadá (para se encontrar com os xamãs das culturas indígenas), ao Tibet, a Paris (para conhecer um hipnólogo famoso) e à Europa Oriental (onde estudou a Cabala com rabinos). Por fim, voltou ao Tibet, e a partir daí os encontros que teve mais parecem fantasias dela do que fatos reais: lá ela teria encontrado certos "Mestres" com poderes sobrenaturais, que supostamente lhe apresentaram um texto em uma língua desconhecida. Depois que os tais Mestres ensinaram Madame Blavatsky a falar esta língua, deram a ela a tarefa de "traduzir" o texto e apresentar ele aos leitores do Ocidente. E assim nasceu a Teosofia, uma doutrina religiosa baseada em textos "revelados" a Madame Blavatsky e aos seguidores mais próximos que ela veio a conhecer nos Estados Unidos mais tarde.

Se devemos acreditar nas revelações de Helena Blavatsky é uma questão em aberto, mas não há dúvida de que ela foi uma personagem humana extraordinária, cuja biografia vale a pena conhecer. 

Sua vida terminou em 1890, em uma pandemia de gripe que hoje se sabe ter sido causada por um coronavírus semelhante ao que hoje nos atormenta.