13/05/2021

Henry Corbin

 




Se existe alguém que conseguiu construir uma ponte verdadeira entre o pensamento do Ocidente e o do Oriente, este foi Henry Corbin. Antes dele, outros já tinham tentado isso (Schopenhauer buscou inspiração nos Vedas, por exemplo), mas Corbin foi quem deu o passo maior, ao mostrar que a grande redescoberta do Ser empreendida por Heidegger já havia sido tentada séculos antes por uns esotéricos iranianos, chamados sufis. O Sufismo e a filosofia Existencial seriam, então, sabedorias do Ocidente e do Oriente unidas por uma ponte que Corbin foi o primeiro a identificar.

O que há de comum entre estas duas sabedorias? Corbin nos mostra que ambas procuram o significado das ações humanas não em seu aspecto utilitário ("de onde vem isso? como isso começou?"), mas sim procuram identificar as formas milenares que se ocultam por detrás dos atos e atitudes comuns. 

Em outras palavras, Corbin está dizendo que devemos procurar pelos arquétipos: se queremos entender os acontecimentos na vida do nosso país, por exemplo, devemos abandonar a busca pelas causas históricas dos problemas (suas razões utilitárias) e tentar outro caminho, o de identificar as ocasiões em que eventos passados tomaram a mesma forma que este atual. No caso da atual crise das vacinas no Brasil, podemos ver que as autoridades do governo federal ganharam um aspecto diabólico no imaginário da maioria das pessoas, e essa forma repercute as aparições anteriores do mesmo tema no passado (os textos mais antigos, como a Ilíada e o Velho Testamento, já retratavam a figura do governante possesso, adorador da Morte).

Portanto, a verdade das coisas se revela no momento em que abandonamos a perspectiva utilitarista que encadeia os acontecimentos em correntes de causa e efeito, metas e objetivos. Quando deixamos esta visão dominante de lado, temos a oportunidade de sintonizar com as formas milenares que regem o aparecimento dos acontecimentos humanos desde um tempo muito primitivo. 

Este trabalho de Corbin foi uma inspiração para Jung, mas é na obra de James Hillman, criador da psicologia arquetípica, que vemos a presença das ideias dele com mais força. 



Um comentário:

  1. No livro "Um percurso psicanalítico pela mística", o autor (Marlos Gonçalves Terêncio) cita uma passagem onde Heidegger teria reconhecido uma ponte com o oriente. Cito: " Conta William Barrett, em famoso relato, que Heidegger, ao travar contato com os livros de D. T. Suzuki sobre o zen, teria exclamado: “Se eu compreendi esse homem corretamente, isto é o que eu tenho tentado dizer em todos os meus escritos” (SUZUKI; BARRETT, 1996, p. xi).

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