09/10/2021

Sobre coisas vistas no céu

No primeiro dia, Deus disse: "Luz!". E a luz surgiu.

Ele separou, então, a luz da escuridão e chamou a luz de "dia" e a escuridão de "noite". A luz chegou na terra e a terra "produziu todo tipo de vegetais, plantas que dão sementes e árvores que dão frutos".

Mas aí, no dia seguinte, Deus decidiu dar outra função pra luz: transformou ela em "luzes no céu para separarem o dia da noite e para marcarem os dias, os anos e as estações". Houve, então, uma mudança na natureza da luz, que se multiplicou e ganhou uma função simbólica, de marcação da passagem do tempo. Da luz que proporcionava fertilidade, passamos pra luz que aparece com a regularidade matemática do sol, da lua e das estrelas, e que nos ajuda a contar os dias que passaram e os dias que faltam pros eventos importantes da vida. Essa luz-calendário é a contribuição de Deus pro início da vida em sociedade, com seus rituais, festas e aniversários.

E o que é que nós ganhamos com essa transição? A transcendência: nós poderíamos ser como as plantas que pegam da luz apenas a energia, mas não: pra nós essas luzes dizem coisas, elas têm significado. Com essa mudança, retratada no Gênesis, conseguimos humanizar a realidade: agora, com as luzes do céu marcando os ritmos da vida, o chão virou estrada e os passos viraram conquistas. 

No início da década de 50, Jung escreveu um texto a respeito do aparecimento de OVNIs -Um mito moderno sobre coisas vistas no céu - em que analisou o fenômeno das avistações de discos voadores, desde um ponto de vista arquetípico. As estranhas luzes que as pessoas estavam vendo no céu seriam, pra Jung, na verdade, projeções de arquétipos do Inconsciente, em especial o arquétipo do Self.

É uma hipótese bem plausível: as luzes do céu estariam retornando cheias de sentido porque a poluição luminosa e o materialismo em que vivemos nos distanciaram dessas mensagens que Deus deixou no céu pra nós, bem no início. 


(Van Gogh dá um exemplo de tudo isso am algumas das suas pinturas)



  

 








Nenhum comentário:

Postar um comentário